Os Efeitos do Covid no Cérebro

Perda de memória, problemas de concentração e a enigmática “síndrome da fadiga crônica”: o cansaço que não passa, e que pode ter origem neurológica. Um a cada cinco infectados pelo Sars-Cov-2 apresenta sintomas assim meses após a cura. Veja o que a ciência sabe sobre eles – e como busca combatê-los.

“Pessoas que tiveram Covid-19 severa e se recuperaram continuam a apresentar sequelas neurológicas, como fadiga, episódios esquizofrênicos e epilepsia. Isso tem ficado cada vez mais claro”, diz o biólogo Alysson Muotri, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego. 

Sintomas assim são menos comuns em quem teve Covid leve ou assintomática. Mas há indícios de que mesmo essas pessoas podem apresentar sequelas. Um levantamento feito por cientistas ingleses, que analisaram estudos realizados em dez países sobre os efeitos neurológicos do coronavírus (3), concluiu que um quinto dos pacientes tem algum problema do tipo após se curar. A fadiga, que acomete 19,3% das pessoas, a perda de memória (18,9%), transtornos de ansiedade (14,8%) e irritabilidade (12,8%) são os mais frequentes.

Os sintomas neurológicos da Covid ainda são pouco comentados, mas o alarme soou faz tempo. Em março de 2020, dois cientistas chineses e um japonês publicaram um artigo sobre o possível neurotropismo do Sars-CoV-2, ou seja, sua capacidade de infectar o sistema nervoso. Eles destacaram que o primeiro Sars-CoV (da epidemia de 2003) podia infectar o tronco cerebral – estrutura que liga a medula espinhal ao resto do cérebro. E era provável que o Sars-CoV-2 tivesse o mesmo potencial.

Hoje, os cientistas já não têm dúvidas de que o novo coronavírus pode afetar o cérebro. Ele já foi encontrado dentro do órgão, inclusive. Mais precisamente nos astrócitos, um tipo de célula que realiza tarefas de “suporte”, como nutrir os neurônios e fazer a manutenção das sinapses, entre outras coisas. Uma equipe liderada por cientistas da USP e da Unicamp examinou o tecido cerebral de 26 pacientes que morreram de Covid-19, e encontrou vírus nos astrócitos.

O coronavírus ataca os astrócitos porque, além de eles serem a célula glial (de suporte) mais abundante do sistema nervoso, são o tipo que mais tem receptores ACE2 – que o vírus usa para se conectar às células humanas. “Quando o astrócito é infectado, o processo inflamatório gera um dano neural. Os neurônios morrem por causa desse efeito tóxico”, diz a bióloga Gabriele Vargas, pesquisadora do Laboratório de Neurobiologia Celular da UFRJ e coautora de uma extensa análise sobre o papel das células gliais na Covid.

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O CANSAÇO IRREAL

Parte das pessoas que têm Covid-19, especialmente nos casos mais graves, fica com algum grau de comprometimento do coração ou do pulmão. Isso provoca dificuldade respiratória e faz com que a pessoa se canse após as tarefas mais banais. Mas, além desse cansaço por razões físicas, existe outro tipo, cujas causas ainda são pouco esclarecidas: a encefalite miálgica. Ela é causada por uma inflamação no cérebro (a encefalite), pode envolver dor crônica (mialgia), e faz com que a pessoa sinta fadiga constante, mesmo se não tiver feito nenhum esforço.

Não existe um teste para identificar a doença, que também não possui tratamento específico. E o número de casos tem aumentado durante a pandemia – já que um em cada cinco sobreviventes da Covid tem sintomas de fadiga crônica. “Especialistas na síndrome têm relatado diagnóstico de um número crescente de pacientes após a infecção pelo Sars-CoV-2”, afirma a ONG americana Solve ME/CFS, que reúne vítimas da doença.

Acredita-se que a síndrome da fadiga crônica possa estar relacionada a lesões no tronco cerebral, uma região que conecta o cerebelo à medula espinhal e faz parte do sistema nervoso autônomo, que controla funções “automáticas” do corpo (como a respiração e a digestão). Mas isso ainda não foi provado. Já quanto aos danos cerebrais, a ciência tem uma pista mais clara: é muito provável que eles não sejam causados pelo coronavírus em si, mas pela resposta inflamatória do organismo.

Isso comprovadamente acontece nos pulmões de quem tem Covid-19, por causa da chamada “tempestade de citocinas”. Normalmente, quando um vírus ou bactéria entra no organismo, o sistema imunológico libera proteínas inflamatórias, as citocinas, que atacam o invasor. Mas no caso do Sars-CoV-2, por razões ainda pouco esclarecidas, essa resposta se torna desproporcional, com excesso de citocinas. Elas acabam ferindo ainda mais o pulmão, que fica cheio de líquido e compromete a respiração. Em casos assim, o que mata não é o vírus, mas a resposta exagerada do organismo. E essa inflamação descontrolada também pode, em tese, afetar o cérebro.

Em suma: os danos neurológicos poderiam ser causados pelo vírus em si ou por inflamação. Na primeira hipótese, o vírus infectaria os astrócitos e outras células gliais. Na segunda, o dano seria causado pelo excesso de moléculas inflamatórias liberadas pelo sistema imunológico. Talvez ambas as coisas – pois a inflamação, além de gerar danos aos tecidos, provoca a abertura da barreira hematoencefálica. “Pode ser que essas hipóteses aconteçam ao mesmo tempo e se ‘retroalimentem’”, diz Vargas.

Lívia Stocco Valentin, professora da Faculdade de Medicina da USP, pesquisadora do InCor e autora de um estudo pioneiro sobre sequelas neurológicas da Covid. Entre março e setembro de 2020, ela liderou um estudo do InCor que investigou disfunções cognitivas em 185 pessoas que tiveram Covid. Participaram desde assintomáticos até os que tiveram quadros mais graves e precisaram ser intubados, com idade média de 45 anos. O trabalho usou o aplicativo MentalPlus, criado pela médica, com uma série de jogos que avaliam a capacidade de tomar decisões, controlar impulsos e resolver problemas. O estudo classificou as funções cognitivas em seis categorias, incluindo “atenção alternada” (capacidade de fazer duas coisas ao mesmo tempo), “atenção seletiva” (fazer uma única coisa) e “função executiva” (especificamente o controle inibitório, ou seja, a capacidade de manter a concentração e não se deixar distrair). Os resultados foram divulgados em fevereiro (16). E são impressionantes.

As altas porcentagens também assustaram muita gente, mas os problemas detectados no teste não podem ser considerados perdas cognitivas – nem associados a danos neurológicos. “Estamos chamando de disfunção, falha ou alteração”, diz Stocco. São coisas reversíveis. Muitos dos participantes do estudo já se recuperaram, e atualmente há 300 pacientes usando o MentalPlus para reabilitação (entre os que não se recuperarem plenamente, alguns serão selecionados para testes com eletroestimulação transcraniana – aplicação de correntes elétricas muito pequenas, de 2 miliampéres, para estimular determinadas regiões do cérebro).

Lívia enfatiza que a Covid-19 não necessariamente leva a disfunções cognitivas. “No estudo, vimos que essas pessoas precisavam ter fatores predisponentes, como histórico de Alzheimer na família e a presença de biomarcadores, incluindo uma enzima chamada apolipoproteína epsilon 4 [relacionada a processos inflamatórios]”, afirma.

 

Agora que a ciência enxerga os efeitos neurológicos do Sars-CoV-2, pode começar a enfrentá-los. E tratar também o cérebro, não só os pulmões, de quem tem (ou teve) Covid.